Químicos pelo mundo – João Pereira (Reino Unido)

Nome: João M. P. Pereira

Curso: Mestrado em Química

Ano: 2º ano

Local de Erasmus: Cambridge, Reino Unido

Universidade: University of Cambridge (Department of Chemistry)

 

 

 

  • Qual foi a primeira foto que tiraste em ERASMUS?

Foto do relógio da Igreja que fica ao lado do departamento. Tinha-lhe tirado uma foto à 5 anos atrás, a visitar Cambridge para uma entrevista no Christ’s College.

 

  • Em que é que pensaste quando estavas no avião?

Que nunca tinha visto um nascer do sol tão lindo. Havia nuvens de gelo a grande altitude; mesmo antes do sol estar acima do horizonte havia uma risca contínua de carmim (cor da fenolftaleína alcalina) sobre um céu laranja. Nunca tinha visto aquela cor no céu, nem achava que fosse possível.

Pensei que tudo estava a correr bem e que só queria que as malas chegassem rápido ao tapete. Também pensei que quando chegasse tinha que ir comprar pão e mercearias e só me apetecia dormir.

 

  • Porque escolheste esse país? E essa cidade?

Escolhi este local um pouco por exclusão de partes. Cheguei a considerar França e Suécia — onde, provavelmente me sentiria igualmente confortável em termos sociais e até me poderiam ter oferecido mais “aventura” cultural. No entanto, em termos científicos, fui procurando por grupos de investigação que demonstrassem duas coisas: pioneirismo e interdisciplinaridade (pronto, usei a palavra de que todos gostam, contentes?).

Eventualmente restringi a escolha a Cambridge, Bristol e Nottingham; Foi em Cambridge que encontrei um grupo (pioneiro no seu campo) que me oferecia a oportunidade de trabalhar em algo diferente — Química Supramolecular e Inorgânica — e onde vi que os meus conhecimentos poderiam trazer algo de novo.

 

  • Do que sentes mais falta na tua nova universidade em comparação com o nosso DQ?

Embora já estivesse à espera, sinto falta da afabilidade: nada como um departamento pequeno e o povo português para alegrar o dia e para facilitar a comunicação com os investigadores e assistentes (as engrenagens burocráticas são mais lentas em Cambridge).

Sinto imensa falta de um bar no departamento que esteja aberto depois das 3h da tarde. Este pessoal não parece gostar de lanchar como deve de ser.

 

  • Já provaste algum prato típico da cidade onde estás?

Esta pergunta claramente não foi pensada para o pessoal que vinha para Inglaterra. A East Anglia em geral não tem uma gastronomia tradicional acessível a visitantes (mas já fiz um Sunday roast, conta?). Cambridge está demasiado perto de Londres para ficar à parte do seu melting pot cultural. Já comi caril e chicken tikka masala, que são dos pratos mais omnipresentes nos menus de pubs e restaurantes em Cambridge (temos algumas curry houses). Também comi fish & chips mas isso está longe de ser típico desta cidade.

 

  • Qual foi a maior dificuldade que sentiste na nova cidade/país?

Perceber o sistema de autocarros de Cambridge; há duas companhias de transporte — uma faz algumas linhas — a outra faz outras — algumas linhas são “partilhadas” com paragens diferentes para cada companhia — um caos organizado (ou uma organização caótica?).

Sinceramente, demorei uma tarde de estudo de mapas, tabelas de horários e tarifas para perceber em que paragens que me compensava apanhar o autocarro. Até agora só andei de autocarro uma vez: no meu segundo dia, para ir de casa à loja de bicicletas.

 

  • Até agora, o que retiras de mais importante nesta experiência?

Que cá também são humanos: também erram; não são certamente mais inteligentes e não há um ambiente especial que favoreça o génio que há dentro de nós (para além da discutível maior liberdade financeira dos grupos de investigação). No todo, não há nada de inerentemente melhor na ciência que se faz. A Química cá é como em Portugal: funciona igualmente mal.

 

  • Do que é que tens mais saudades de Aveiro?

Já disse bares abertos depois das 3, não já? Adiciono 3 da manhã à lista.

Agora a sério: peixe, arroz “normal” e café.

Peixe bom, nos supermercados de cá, resume-se a bacalhau (fresco) e salmão; caríssimos e maior parte das vezes, pré-temperados, pré-panados e mesmo pré-cozinhados. Arroz é quase todo estufado. Tudo o que os produtores puderem fazer para tirar tempo de cozinha ao Ingleses é bem-vindo. Sinto que se houvesse algo pré mastigado eles comprariam… oh wait, vendem puré de ervilhas em lata…

Já era esperado que eu me teria de contentar com uma de três opções: café instantâneo, beber alcatrão no bar do departamento ou gastar um balúrdio. Tenho bebido café instantâneo; é barato, é assim-assim, mas ao menos uma pessoa não espera mais do que isso.

De resto, sinto falta da Praça do Peixe, da ria (por muito nojo que ocasionalmente cause) e do mar — não estou suficientemente perto para ir e vir de bicicleta numa tarde.

 

  • Uma mensagem a quem não tem coragem de ir de ERASMUS:

Sim, é provável que seja um esforço financeiro, de resto, não há desvantagens. Qualquer desconforto, problema, dificuldade que possam vir a ter (por mim nem vejo o que possa ser, além do café), só vos dará tarimba! Facilitará a vida futura, e muito! Principalmente se forem em estágio: dar-vos-á a experiência de chegar a um local e, pela primeira vez, ter colegas de trabalho de uma outra cultura (normalmente mais “fria”). É uma dinâmica diferente, apura o sentido nato de desenrascanço português e leva-nos a crescer.

 

  • Algumas fotos:

A minha fiel companheira, em frente ao monumento a Hobson, o responsável pela construção de uma levada desde as nascente de Ninewells (local da foto) até ao centro de Cambridge.

 

Dois dos 15 barcos a competir nos Lent Bumps – uma competição de remo em que o objectivo é bater no da frente, basicamente: barquinhos de choque.

 

Foto da ala do departamento onde trabalho: 5 andar, mesmo por detrás das chaminés.

 

Um dos muitos e vastos meadows ao redor de Cambridge. É frequente verem-se cavalos em alguns deles e todos têm caminhos pedestres e ciclovias (muitas delas dedicadas). A foto demonstra uma qualidade que Cambridge partilha com Aveiro: quase total ausência de acidentes geográficos.

 

João M. P. Pereira

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