Químicos pelo Mundo – Sara Bagagem (Itália)

Nome: Sara Bagagem

Curso: Licenciatura em Biotecnologia

Ano: 2º ano

Local: Pavia, Itália

Universidade: Università degli studi di Pavia (Dipartimento di Biologia e Biotecnologie)

Qual foi a primeira foto que tiraste em ERASMUS?

A primeira foto que tirei (em que não apareço) foi quando cheguei ao collegio (aka residência) em Pavia, fui à rua e tirei uma foto da Ponte Coperto. Como podem ver o tempo estava ótimo 😛

Contudo para uma primeira foto mais interessante 😉

Uns dias após ter chegado a Pavia, a ESN (Erasmus Student Network) de Pavia organizou um City Tour onde foi tirada a primeira foto onde eu realmente apareço.

Em que é que pensaste quando estavas no avião?

Sendo o mais sincera possível, simplesmente não pensei. Eu despedi-me dos meus amigos e da minha família antes de ir para o aeroporto (apenas fui com o meu pai), então as emoções estavam à flor da pele. Porém, apanhei um voo tão cedo que entre o momento de sair de casa e entrar no meu novo quarto passaram quase 13h de viagens. Todo esse tempo é para mim agora um grande vazio. Estava num estado vegetativo, em piloto automático, o meu único objetivo era chegar ao destino final e chegar bem. Sei que esta pergunta é, no fundo, dirigida aos sentimentos de medo e incerteza ou de coragem e vontade. Eles chegaram, nomeadamente quando cheguei ao quarto em Pavia. Acho que foi nesse momento que percebi “Sara estás oficialmente a viver num país desconhecido, cuja língua não falas, e só vais voltar para casa em 5 meses”. Por mais incentivos e boas memórias que alguém que tenha participado no programa Erasmus possa oferecer estes apenas servem para te fazer dar o primeiro passo, a inscrição. Toda a motivação que senti inicialmente se transformou em receios de tudo o que poderia correr mal. Não se martirizem, o tempo cura tudo. O tempo afasta esses medos com uma rapidez impensável. Na semana seguinte já só consegues planear tudo o que queres fazer no tempo em que estarás fora.

Um perfeito exemplo visual: o tempo no dia em que cheguei vs o tempo uma semana depois:

Porque escolheste esse país? E essa cidade?

Gostava de poder dizer que foi uma escolha premeditada e incrivelmente ponderada. Não foi! Acredito que na maioria das vezes não o é. Eu tinha um objetivo, eu queria participar no programa Erasmus, sempre soube que mais do que valor académico, este programa nos acresce valor pessoal. Seguidamente à tomada dessa avassaladora decisão chega ainda uma maior que passa então pela escolha da cidade. A escolha do país foi para mim, relativamente fácil, entre os países que possuíam acordos com a UA e com o curso de biotecnologia, Itália sempre foi o que mais me cativou. Por outro lado, a escolha da universidade (existem diversas opções dentro de Itália) já foi acompanhada de alguma pesquisa, a Universidade de Pavia foi a que me apresentou a melhor opção curricular. (Podemos também assumir, “off the record” que a ótima posição geográfica de Pavia em relação a Milão e a todas as cidades mais importantes do Norte da Itália entrou na balança de tomada de decisão).

Do que sentes mais falta na tua nova universidade em comparação com o nosso DQ?

Sinto que a resposta a esta pergunta passa sempre pelo mesmo aspeto: as pessoas e a união. Costuma-se dizer que só damos valor às coisas quando as perdemos. Eu senti exatamente isso: quando estamos no conforto do nosso departamento, da nossa universidade as ligações que criamos com as pessoas tornam-se muito mais especiais que os ocasionais “colegas de turma”. Quantas vezes não saimos das aulas e ficamos a almoçar pelo DQ? A estudar na biblioteca? Pequenas tarefas que damos como garantidas pela nossa integração na Universidade de Aveiro. Em Pavia a realidade é completamente diferente. Eu escolhi frequentar cadeiras de diferentes anos e ainda de diferentes ramos (biotecnologia molecular e biotecnologia médico-farmacêutica) o que equivale a estar integrada em turmas diferentes. Além dessa particularidade os departamentos não estão a uns simples metros de distância. Tendo cada cadeira num departamento diferente (por vezes separados por viagens de autocarro) não permite que se crie uma grande união entre as pessoas. Quando saímos de uma aula seguimos para a próxima onde na maioria das vezes as pessoas nem são as mesmas. Almoços? Tens cantinas espalhadas por toda a cidade. Bibliotecas? Uma em cada “faculdade”. Há uma grande dispersão dos alunos. Sinto falta dessa união que o DQ e a UA representam para mim.

Já provaste algum prato típico da cidade onde estás?

Na cidade onde estou não existe um prato extremamente típico, contudo as piadinas são muito conhecidas (quer doces ou salgadas).

Tive também a grande sorte de estar numa cidade com uma cultura gastronómica extremamente rica, desde restaurantes que servem comida típica italiana como as boas pastas e pizzas, a restaurantes de comida libanesa, japonesa, grega, de tudo um pouco.

A alimentação dos italianos é completamente diferente. Os olhares que recebia cada vez que cozinhava inicialmente na residência eram muito interessantes. Eles (um exemplo num restaurante) têm uma divisão da refeição em 3 partes. O primeiro é o antipasto, que no fundo equivale às nossas entradas. Posteriormente comem o primeiro prato que é apenas arroz (risoto) ou massa com os seus maravilhosos molhos de bolonhesa, pesto, etc. Depois é que têm um segundo prato com apenas carne acompanhado com salada e legumes (num prato diferente). O conceito de comer tudo isto que mencionei, salada, carne e arroz/massa no mesmo prato ao mesmo tempo é algo que eles não entendem.

Apesar da gastronomia ser do melhor que Itália tem, Erasmus trouxe-me também oportunidades de explorar também o mundo através comida. Tive a oportunidade de participar no Eurodinner 2017 (https://youtu.be/lYn60oBMQ1M) em que a maioria dos alunos de Erasmus se propôs a cozinhar comida do seu país (maravilhoso <3). Também entre o meu grupo de amigos mais chegados organizámos jantares dedicados às nossas culturas onde cozinhamos comida do nosso país, ouvimos música tradicional e trocámos histórias. Cada jantar foi dedicado a um país: Grécia, Lituânia, Turquia, França, Portugal e Brasil.

Qual foi a maior dificuldade que sentiste na nova cidade/país?

Não houve nenhum momento em que sentisse que a minha nova cidade (ou país) me tenha feito enfrentar uma enorme dificuldade que não conseguisse ser ultrapassada. Para alguém que desde que entrou na universidade sempre viveu sozinha, as mudanças não são astronómicas. A maior “comichão” que a experiência de Erasmus pode proporcionar são sem dúvida as saudades, dos amigos, da família, dos pratos, da língua, das mentalidades e claro, a barreira linguística que encontramos sempre. Um conselho para os “italianos emprestados” do futuro. Aprender a língua do país para onde vais embarcar na tua experiência de Erasmus não é de todo imperativo. Contudo, sobreviver em Itália significa saber os ocasionais ciao, va bene, etc. Não esperem, especialmente dos italianos, uma grande fluência no inglês. Preparem-se para receber vários “nãos” sem sequer vos tentarem perceber primeiro. Por outro lado, também não esperem apenas experiências negativas, todas as semanas tenho uma conversa com a senhora que faz a limpeza no meu quarto, ela não fala inglês, eu não falo italiano, mas o que é certo é nos percebemos.

Até agora, o que retiras de mais importante nesta experiência?

Esta experiência de Erasmus ensinou-me acima de tudo a abraçar as diferenças culturais existentes. Ensinou-me que o Mundo não é assim tão linear como pensamos e que o que tomamos como garantido muitas vezes não é de todo garantido para os outros. Diferentes pontos de vista podem colidir nos mais diversos assuntos: política, educação, religião, séries de televisão, filmes, mesmo que no fim todos adorem Rick and Morty à mesma.

Do que é que tens mais saudades de Aveiro?

Por mais estranho que pareça tenho saudades daquelas épocas de exames em que se sente uma aura negativa a pairar no ar da biblioteca. Acreditem, aqui essa aura está presente, mas é uma sensação estranha estudar a toda a hora com pessoas que nem da tua área são. É bizarro pensar que uma simples tarefa do dia-a-dia pode causar tanta diferença. Saudades dos amigos, dos ares, da ria, de tudo.

Uma mensagem a quem não tem coragem de ir de ERASMUS:

Não gostas de conhecer novas pessoas, novas nacionalidades e novas culturas? Odeias viajar e conhecer o Mundo? Não suportas experiências únicas e diferentes? Então Erasmus não é definitivamente para ti.

Não vou mentir, vão existir sempre dias em que vais adorar estar longe de casa e dias em que só te apetece desistir (por coincidência esses dias calham sempre em época de exames). Mas os aspetos positivos e a força de vontade vencem tudo.

Cada dia que passa em Erasmus é uma nova aventura e uma nova experiência. De certeza que muitos pensam que o que estou a dizer é um exagero apenas para cativar. Essas pessoas não passaram 2 dias a correr supermercados à procura de bacalhau, não provaram um sabor diferente da melhor gelataria de pavia todas as semanas (para registos médicos direi semana e não dia), não andaram de autocarro diariamente sem bilhete e com receio de ser apanhado até o passe chegar, não decidiram de um dia para o outro visitar uma cidade a mais de 200km de distância. Pequenos e simples momentos que proporcionaram grandes memórias. Costumo dizer que quem constrói a tua experiência de Erasmus és tu próprio. Não esperes que alguém te motive a ir de Erasmus, motiva-te a ti próprio.

Algumas fotos:

Deixar uma resposta