Químicos pelo Mundo – Carla e Ricardo (Sérvia)

Nome: Carla Martins e Ricardo Guilherme
Curso: Mestrado em Biotecnologia
Ano: 5º ano
Local: Novi Sad, Sérvia
Universidade: Faculty of Sciences, University of Novi Sad

Qual foi a primeira foto que tiraste em ERASMUS?
Carla (C):As duas primeiras fotos que tirei foi em Budapeste, local onde aterramos, eram umas 23h, mal dormimos nesse dia, foi uma noite que ficou para a história. Aqui ficam elas!

Ricardo (R): Esta foi a primeira foto que tirei. Foi no autocarro para o centro de Budapeste (para onde voamos), enquanto esperávamos que as manifestações na cidade parassem para podermos chegar ao centro e ir procurar um Hostel para ficarmos uma noite!



Em que é que pensaste quando estavas no avião?

C: Boa pergunta. No dia em que parti para esta aventura, tive os meus pais e o meu irmão ao meu lado e isso condicionou muito a maneira como digeri toda a viagem de avião. Até lá todos nós pensamos que vamos fazer e vai ser bom para nós e vai ser novo, mas podemos dar sempre o passo inverso a qualquer momento.
Quando passei aquelas portas, e os deixei de ver ao longe, sabia que naquele momento, eu não tinha mais o passo inverso, eu só tinha uma direção e sabia que até voltar aquele seria o último momento em que os via, ali comigo. No avião tudo nos passa pela cabeça, a emoção do que deixamos, a tristeza de quem nos vê partir, o receio do que possamos encontrar e como vamos lidar com isso e o entusiasmo pelo desconhecido e pelas experiências que vamos viver.
É claro que houve sempre um momento em que eu pensei: ‘’Como vai ser? Eu vou gostar? Eu vou adaptar me? E se acontece alguma coisa e eu estou lá? ‘’. De todas estas questões, a última foi a que mais me inquietou naquele avião, a incerteza e o receio que algo pudesse acontecer com quem mais amo e eu não estar lá.


R: Quando estava no avião pensei em muita coisa… Em primeiro lugar na minha família. É a segunda vez (em dois anos seguidos) que venho de Erasmus e, como é óbvio, a minha família apesar de já ter passado por isto de me ter longe, sentem sempre a minha falta e eu a deles. Depois, pensei no como iria conseguir estar num país culturalmente tão diferente de Portugal e Espanha (local do meu primeiro Erasmus). Começando pela língua (ainda só sei dizer meia dúzia de palavras) e acabando no facto de ir para um laboratório novo com pessoas novas e costumes diferentes (sim, muito diferentes mesmo!).
Mas, depois, também pensei no quanto iria gostar desta nova experiência. No quanto isto me faria crescer ainda mais enquanto pessoa e enquanto estudante. Pensei no quanto esta experiência me iria desafiar. Foi, portanto, um misto de emoções, mas sem nenhum arrependimento por vir.

Porque escolheste esse país? E essa cidade?
C: Bem, não foi bem uma escolha foi mais uma oportunidade que surgiu no decorrer da nossa monografia. Este último ano de Mestrado contém duas partes de avaliação, a monografia e a tese. Em conversa com a nossa Professora Sílvia Rocha e Orientadora de tese, a quem desde de já agradeço imenso esta oportunidade, surgiu a oportunidade de termos acesso a duas bolsas para Novi Sad e assim enriquecer não só a nossa tese, podendo realizar trabalhos que não seriam possíveis em Portugal, como conhecer como funciona o ensino, as culturas e enriquecer claro a nível pessoal, sendo que foi uma proposta irrecusável.
R: Na verdade, não escolhi vir para aqui. A oportunidade de vir para aqui foi sugerida pela minha orientadora de tese, a professora Sílvia Rocha (obrigado desde já), pelo que apenas tive de dizer que sim, sem escolher o sítio. No entanto, se tivesse de escolher acho que escolheria vir para aqui, sem dúvida. É uma oportunidade não só para crescer enquanto pessoa e aprender novas culturas, mas também para viajar muito a preços acessíveis 😀

Do que sentes mais falta na tua nova universidade em comparação com o nosso DQ?
C: Esta experiência até agora serviu de muito nesse sentido. Às vezes precisamos de abraçar o mundo lá fora para vermos o que temos cá dentro. A verdade é que a Universidade, o Departamento, os laboratórios, é tudo muito diferente. Primeiro, o departamento só abrange Bioquímica e Química num piso de 5 presentes neste Departamento, segundo, os laboratórios são irrisórios, muito pequenos, pouco material, maneiras diferentes de sustentabilidade do próprio laboratório. Enfim, passaria imenso tempo a tentar descrever o quão diferentes são as condições, mas isso fica para uma outra altura.
Mas o que sinto mais falta? As pessoas, os meus colegas de laboratório (em especial ao Ângelo, a Jéssica e a Catarina), que tanto me ajudavam nas alturas mais complicadas, o GRF, os meus amigos mais chegados, os meus pedaços…porque esta aventura, deu para comprovar mais uma vez, que os locais se fazem na sua maioria das vezes de pessoas, aquelas que nos acompanham e tornam tudo mais bonito e mais vivido.
R: Pergunta difícil… Sinceramente sinto falta de (quase) tudo no nosso DQ! Em primeiro lugar do laboratório daí! Estava habituado a ter o material que necessitava, quando precisava. Aqui não é bem assim… Para não falar de que lavar o material (sempre) leva quase um dia… Depois sinto falta das pessoas do nosso departamento, claro. Sempre com um sorriso quando se diz bom dia. Dizem de nada depois de um “obrigado”… Depois claro, também sinto falta da nossa meia-lua. Onde está sempre alguém que conheces!
No entanto, tenho a sorte de ter embarcado nesta aventura com o melhor que Aveiro me deu: a melhor amiga que poderia pedir, a Carla. A ti, um grande obrigado por tudo <3.

Já provaste algum prato típico da cidade onde estás?
C: Já sim! Provei vários! E não só aqui em Novi Sad, mas em outros locais da Sérvia que já tivemos o prazer de visitar (Belgrado e Despotovac), assim como outros países aqui perto, Áustria e Bratislava. Mas a alimentação é totalmente diferente de Portugal. Deixo vos aqui algumas fotos do que podem encontrar se fizerem uma paragem nesta bela cidade, mas há muito mais.

 

Nestas fotos estão presentes alguns dos pratos que experimentei, desde os típicos pequenos almoços que de pequenos não tem nada (Ex: a omelete com queijo, compota e pão típico deles, do género de fartura, mas não é doce e aqueles cubos de ovo, queijo (o queijo e o iogurte aqumo. Têm também um dos melhores pães que já comi na minha vida, então quentinho, que delicia! As saladas com queijo, tomate e pepino, tão típicas por estes lados e claro a paprika cozinha em alho (tão utilizada por estes lados, o que para mim é uma boa surpresa), a carne recheada com queijo e fiambre, o famoso Burek, há de legumes, frango, tudo (deve ser acompanhado com iogurte)! É tão bom, mas aqui tudo tem muito muito óleo, massa folhada e queijo! As sopas, a primeira é a típica Sérvia (com queijo e carne) e a última é sopa de peixe do rio que experimentamos num restaurante à beira rio. A última salada é a típica salada sérvia, extramente picante (paprika em todo o lado), muito muito boa.

R: Claro que sim!!! E é boa a comida aqui. No início tinha um bocado de receio de experimentar, mas lá experimentei e adorei! Começando pelo gyro (espécie de kebab, com imensa verdura e vários molhos à escolha como molho de iogurte, de queijo, ketchup, maionese, picante); o Index (fiambre ou presunto e queijo grelhados com vegetais dentro de um pão com os mesmos molhos do gyro); o Pljeskavitsa (hambúrguer típico de cá que é muito espalmado e muito bom e, mais uma vez, servido no pão com vegetais e molhos); sopa típica da sérvia (carne de vaca, cenoura, queijo, pimenta-foto), assim como uma variante com cordeiro; cordeiro assado como o leitão em Portugal; frango recheado com presunto e queijo; imensos tipos de queijo; pão típico; carne de porco recheada com presunto e queijo; Sarma (carne picada e arroz enrolado em couve); Cevapcici (mesma carne do Pljeskavitsa, mas em forma de salsicha); truta do rio Danúbio; folhado de queijo e ovo típico no pequeno almoço. E, claro, para finalizar, apesar de não ser uma comida, a bebida “nacional” da Sérvia, Rajkia que normalmente tem 45º e pode ser feita de várias frutas. A da foto era de pêra.

Qual foi a maior dificuldade que sentiste na nova cidade/país?

C: A maior dificuldade? É complicado, tudo o que seja, lidar com problemas de estadia, alugar casa, polícia. Estamos no Leste Europeu, tudo é muito diferente, chegamos aqui e tudo parece um pouco ‘’ilegal’’, a maneira como somos vistos pela policia, como nos tratam, somos estrangeiros e não somos bem-vindos. A Sérvia é um país que é muito patriota e Novi Sad é a sua segunda maior cidade, sendo que todos os dias vemos coisas que não gostamos, ou que nunca pensávamos, nem estávamos perto de imaginar. Levamos algumas histórias menos boas, mas levamos outras muito boas e é disso que se fazem estas experiências. Não vínhamos com o pensamento que seria fácil para a maioria das pessoas nos verem no país que é deles, mas também nunca pensaríamos que a Polícia seria um dos primeiros a querer nos prejudicar. É um pouco como nos filmes, se tivesse de a descrever em uma palavra, seria sem sombra de dúvidas, ilegalidade. E claro, não posso esquecer, esta língua, que é extremamente complicada para nós, mas que já vamos dando uns toques.

R: Tantas dificuldades, na verdade. Mais do que esperava. Mas há duas que são as que mais destaco. A primeira é a barreira linguística. Maior parte das pessoas nos supermercados/lojas/cafés não fala Inglês, pelo que tive de desenvolver a minha comunicação por gestos e dizer “da” (sim), o que já levou a situações caricatas em que comprei coisas que não queria no supermercado porque só dizia que sim. Depois, há também a barreira da cultura… Os costumes são totalmente diferentes dos de Portugal. Por exemplo, aqui é habitual começar-se a trabalhar as 8/9 até as 16/17 h sem pausa para almoço, sendo que se almoça depois do trabalho estar finalizado, o que até acaba por ter as suas vantagens porque podemos almoçar mais tranquilamente, sem a pressa de que temos o trabalho por acabar no laboratório.

Até agora, o que retiras de mais importante nesta experiência?
C: Estamos aqui à um mês e uns dias, mas esta experiência tem sido incrível porque temos a oportunidade de conhecer pessoas de todos os cantos do mundo, culturas diferentes, comidas diferentes, experiências que nunca conseguiríamos desenvolver em Portugal. Muito resumidamente, o mais importante desta experiência tem sido o desenvolvimento e enriquecimento profissional e pessoal.
R: Até agora o que retiro de mais importante nesta experiência é saber lidar com uma cultura completamente diferente da portuguesa. Com as pessoas completamente diferentes. Acho que me fez crescer enquanto pessoa e vai continuar a fazer crescer nos três meses que ainda me restam nesta cidade/país.

Do que é que tens mais saudades de Aveiro?
C: Sinto falta dos meus amigos, do abraço deles, de estar com eles num café, a beber uma Super Bock e a comer uns tremoços ou uns amendoins. Sinto falta de ir ao McDonald’s, encontrar toda a gente, às vezes mesmo sem combinar nada. Sinto falta de uma tripa quentinha com canela, de uma torradinha no bar e de um belo de um café. Em suma daquela cidade à beira mar, que tem tantos encantos e recantos e às minhas pessoas preferidas que ainda a tornaram mais bonita para mim.
R: Da ria, do seu cheiro tão peculiar, da nossa universidade, do convívio, da praça do peixe… Basicamente de tudo. Mas, sobretudo, dos meus amigos. Sinto que, de alguma forma, depois de ter ido duas vezes para o estrangeiro em Erasmus em dois anos consecutivos me afastei de imensa gente mas que, claro, há aqueles amigos que sabes que estão sempre contigo, onde quer que estejas no mundo. A esses meus amigos (sabem quem são) um enorme obrigado por tudo.

Uma mensagem a quem não tem coragem de ir de ERASMUS:
C: Se me dissessem há uns anos atrás que eu algum dia iria ter uma experiência destas eu provavelmente não acreditaria. Mas a verdade é que é tão enriquecedora! Deixem os receios de lado, temos tantas expetativas para o que vai funcionar mal, como por exemplo, a língua, a dificuldade de adaptação, o estar longe de quem gostamos. E baseamos nos tanto nisso que raramente vemos o que pode funcionar bem, o conhecer pessoas que tal como nós tem esses receios, tem as mesmas dificuldades e que por vezes são bem semelhantes a nós, só que são de outro lado do mundo. Conhecer culturas, hábitos e pessoas diferentes. Partilhar, dar e receber, são as três palavras que descrevem para mim esta caminhada, partilhar uns com outros, dar o que melhor temos do nosso país e a nossa cultura, receber o que de melhor eles têm para nos dar. É uma sensação de superação, saber, conhecimento e enriquecimento. É sem dúvida uma das melhores experiências da minha vida, então avancem, sem medos e vejam o que o mundo lá fora tem para nós!
R: Faz agora um ano que, com todo o gosto, participei neste pequeno espaço do NEQ quando estava em Espanha. Não quero repetir-me mas é impossível não o fazer. A quem não tem coragem de ir de Erasmus só tenho a dizer que não há porque ter receio. É, sem dúvida, a melhor experiência que um estudante universitário pode ter. Em Erasmus somos postos à prova todos os dias. Todos os problemas que tenhamos temos de ser nós a resolver porque não é como estar em Aveiro em que qualquer coisa podemos ir a casa… Em Erasmus aprendemos imensas coisas mas, para mim, a mais importante é que nos descobrimos a nos mesmos. Conhecemo-nos melhor do que aquilo que nos conhecíamos. Aprendemos o nosso lugar no mundo, quer seja porque sabemos que queremos viver sempre em Portugal, quer seja porque sabemos que não queremos ficar em Portugal quando acabarmos os nossos estudos. A ti, que não tens coragem ou tens receio, informa-te sobre o programa. Ouve as experiências dos outros. Saí da tua zona de conforto!

Algumas fotos na Sérvia (C):

Algumas fotos na Sérvia (R):

Eu e a Carla na estação de Budapeste antes de apanharmos o comboio (de 7h) que nos levaria à maravilhosa cidade de Novi Sad.
Nós e o nosso colega de casa italiano, o David (consegue ser um grande chato mas tem sido um dos nossos melhores amigos aqui) num barco com vista para o forte de Novi Sad situado do outro lado do rio Danúbio.

Estas duas fotos foram tiradas em Belgrado, capital da Sérvia na nossa visita relâmpago.

Por detrás desta foto há uma história: três colegas de casa decidem ir a Viena e Bratislava no autocarro da noite. 4 horas na fronteira entre a Sérvia e a Húngria e, quando finalmente os nossos passaportes são vistos pelo controlo de fronteira, eu decido tirar uma selfie e quase sou preso porque era proibido tirar fotos 😀

Estas três últimas fotos foram da nossa mais recente viagem a Despotovac, uma vila no sudeste da Sérvia, com 2 amigos nossos: O Emeka (da Nigéria) e a Rasa (da Lituânia).